Um singelo barco velho era meu único apego
A vela toda remendada me levava de um lado pro outro
E o lago em que navegava, nomear como grande era pouco
Preso no próprio e incerto pensamento profundo
Percebi-me num momento pesado, carregado e imundo
Não me dei conta que a dona da vida me visitaria
No desapego desonesto e desumano que conheceria
Para que houvesse equilíbrio minha vela rasgou
E tudo aquilo que parecia ser azar se evidenciou
Esclarecendo o que tinha que pagar por seu eu
Foi então que meu único remo também se perdeu
Ali estava sem vento, nem vela, sem remo e sem ela
No meio do lago com piranhas e outros seres nocivos
Longe da margem no lago da vida correndo perigo
Com comida esgotada, bebida escassa e nada na barriga
Envelhecia no barco velho e via a vida passar
Recebia piranhas as vezes e via o tempo passar
A minha angústia era nunca ver a margem mudar de lugar
E nem uma corda eu tinha para tudo se terminar
Paguei com o tempo e a prisão do vento
Todo mal que fazia por velejar sem destino
Passando por vidas que encontrava no caminho
Causando dor, solidão e sofrimento
Agora escrevo na mente meu castigo
Decorei e rimei a essência da minha existência
Ainda que não posso chegar à insana demência
Tento pedir ao vento que apenas leve-a a um amigo.