Gilson tinha um vizinho carranco. Reclamava dos barulhos que Gilson produzia por conta da vitamina e do intestino. Seu vizinho punia Gilson por tudo que ele passava e apontava seus maiores pormenores como se fossem relevantes. De fato não eram. Mal vestido e desprendido como sempre, Gilson de trinta e quatro anos, gostava apenas de desenhar cenas do seu bairro. Sempre que podia retratava um episódio comum e o transformava em uma memória rica no papel. Ele adorava seu bairro.
Seu vizinho tinha belos pares de perna e não era, nem de longe, um travesti. Sônia, uma mulher bela e marrenta de trinta e sete anos, era quem Gilson tanto temia e tanto ouvia reclamar. Pobre coitado. Tinha tanto medo de não poder controlar o que sentia por Sônia que figurava a dama como um velho sem dentes em sua cabeça. Seu vizinho carranco que tanto lhe atormentava, mal sabia que Gilson não fazia por mal. Não era mesmo de propósito toda essa irritação que Sônia sentia.
Sua vizinha era realmente tentadora. A janela que o diga. Sempre quando cantava enquanto preparava sua massa caseira, Gilson sorria e ficava feliz por saber que a furiosa vizinha se sentia bem. Pobre da sua vizinha que vivia só. Não teve mesmo sorte no amor e tudo que lhe restou foi um felino de três quilos. Nem pra virar jantar o danado servia. Lamentava por não ter companhia e tampouco tinha esperanças de conseguir alguém naquela altura da vida. Vida ingrata, pensava ela, tinha beleza e faltava comida na mesa. Quem diria.
A rotina afastava quem mais via de perto sua vida. Sônia não suportava Gilson e Gilson temia a ira de Sônia. Ela não entendia que de vez em quando um pouco de tolerância traz a felicidade e impediu que o destino fizesse sua parte. Ele, por outro lado, não percebeu que a ousadia cria oportunidades e não deixou que sua atitude mudasse seu mundo. Sônia não olhou pro lado quando precisou, pois seu cabresto não permitia. Nunca soube que Gilson só queria viver com ela, alugar seu apartamento e dividir a renda e fazê-la feliz como sempre sonhou. E Gilson se contenta desenhando sua rua preferida.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
terça-feira, 20 de julho de 2010
Não há tempo ruim.
Há dois verões plantei uma amiga.
Cuidei com ferramentas delicadas, atenção e reguei com companhia
Agora, depois de firme na terra, dá pra saber porque ficou bom
Percebi, com as estações, que não era só ela que crescia
E eu ganhei um jeito novo de olhar pro mundo como se fosse um dom
Deu gosto de ver o tamanho da amizade e os frutos que colhia
Enxergo tudo que me faz bem e há quem me faça sorrir nesse tom
Semente de yayá não se compra por aí nem se encontra todo dia
Sou grato ao curso da vida que me fez cultivar essa planta, de coração.
Cuidei com ferramentas delicadas, atenção e reguei com companhia
Agora, depois de firme na terra, dá pra saber porque ficou bom
Percebi, com as estações, que não era só ela que crescia
E eu ganhei um jeito novo de olhar pro mundo como se fosse um dom
Deu gosto de ver o tamanho da amizade e os frutos que colhia
Enxergo tudo que me faz bem e há quem me faça sorrir nesse tom
Semente de yayá não se compra por aí nem se encontra todo dia
Sou grato ao curso da vida que me fez cultivar essa planta, de coração.
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Davi, Vida, Davi
Quis porque quis fazer parte desses seus dias
Esses que você me diz nunca ter esquecido
Agora eu nem lembro se fui feliz
E questiono sempre o motivo de ter nascido
E a dor que dorme e atormenta meu tempo
Pesa sobre mim escurecendo meu rosto
Esfria-me o peito esse seco vento
E me faz, da velha vida, esquecer o gosto
Filho, sinto nunca ter te conhecido
E hoje sou incompleto por sua ausência
Antes fosse ao contrário, diz a natureza
Escrevo por dias para escapar da demência
Não lembro seu nome, seu rosto, nem como partiu
Esqueci sua data, sua cor preferida e tudo em você
Mal sei do semblante do último dia em que sorriu
Isso porque eu ainda nem te vi nascer
Esses que você me diz nunca ter esquecido
Agora eu nem lembro se fui feliz
E questiono sempre o motivo de ter nascido
E a dor que dorme e atormenta meu tempo
Pesa sobre mim escurecendo meu rosto
Esfria-me o peito esse seco vento
E me faz, da velha vida, esquecer o gosto
Filho, sinto nunca ter te conhecido
E hoje sou incompleto por sua ausência
Antes fosse ao contrário, diz a natureza
Escrevo por dias para escapar da demência
Não lembro seu nome, seu rosto, nem como partiu
Esqueci sua data, sua cor preferida e tudo em você
Mal sei do semblante do último dia em que sorriu
Isso porque eu ainda nem te vi nascer
domingo, 11 de julho de 2010
Nem sempre foi assim
Houve um dia em que eu aproveitava o dia
Levava café da manhã aos meus pais na cama
E saía de pijama na rua
Gostava de uma menina do colégio e sair sozinho não podia
Comia pastel na feira no domingo de manhã. Ah, Domingo de manhã!
Quanto tempo que não te vejo.
Não tinha vaidade e sentia saudade do fim de semana passado. De verdade.
Andava na praia sem maldade, ah que saudade!
Não gostava de cerveja e ria dos adultos sem entender porra nenhuma.
Vibrava com filmes inocentes e durante a tarde via a tarde passar.
Tinha um ar leve e um suspiro puro. Eu gostava de ficar em cima do muro.
Imaginava minha vida de hoje bem diferente.
Esqueci como era e agora sou descrente.
Acho que não devia saber demais e crescer custou minha paz.
Meus princípios de hoje não são de criança, mas deveriam!
Me completa e conforta pensar que nem sempre foi assim...
Levava café da manhã aos meus pais na cama
E saía de pijama na rua
Gostava de uma menina do colégio e sair sozinho não podia
Comia pastel na feira no domingo de manhã. Ah, Domingo de manhã!
Quanto tempo que não te vejo.
Não tinha vaidade e sentia saudade do fim de semana passado. De verdade.
Andava na praia sem maldade, ah que saudade!
Não gostava de cerveja e ria dos adultos sem entender porra nenhuma.
Vibrava com filmes inocentes e durante a tarde via a tarde passar.
Tinha um ar leve e um suspiro puro. Eu gostava de ficar em cima do muro.
Imaginava minha vida de hoje bem diferente.
Esqueci como era e agora sou descrente.
Acho que não devia saber demais e crescer custou minha paz.
Meus princípios de hoje não são de criança, mas deveriam!
Me completa e conforta pensar que nem sempre foi assim...
terça-feira, 6 de julho de 2010
Um dia de palco
Pularam minha fala e me viraram as costas
A luz não me encontrou no cenário do dia
Eu não ensaiei, eu nem sei
E esse é o grande truque de acordar e dormir
Pois cada dia é um palco e você atua como o Sol quer
Ou a Lua.
E se tudo der errado, pois bem, que venha a outra cena.
A luz não me encontrou no cenário do dia
Eu não ensaiei, eu nem sei
E esse é o grande truque de acordar e dormir
Pois cada dia é um palco e você atua como o Sol quer
Ou a Lua.
E se tudo der errado, pois bem, que venha a outra cena.
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